Publicado por: anafilipapinto | 11/11/2010

Quem do dia (ainda) não faz notícia.

Hoje tenho a honra de ceder o “meu dia” a alguém que ainda está a concluir o curso de Ciências da Comunicação. Afinal, se é importante saber o que vivem os que já andam pelo mercado de trabalho, é igualmente relevante saber o que esperam, sentem, desejam, receiam todos aqueles que estão prestes a deixar a Universidade e a conhecer um mundo bem diferente.

Aqui fica então o contributo de Pedro Miguel Coelho, aluno de segundo ano de Ciências da Comunicação, na FCSH da Universidade Nova de Lisboa.

(Obrigada Pedro.)

 

 

“Quem do dia faz notícia. Decerto não serei eu, pelo menos não farei a notícia como os nossos ilustres autores a sabem fazer – em órgãos de comunicação reputados e em verdadeiras vidas de trabalho no jornalismo. No entanto e apesar de todas as dúvidas que me surgem, ainda tenho o fascínio pelo bulício das redacções, pela corrida para fazer com que a nossa peça ainda entre a tempo do noticiário daquela hora. Ser jornalista é ser como um herói, aquele que salva o mundo da desinformação e, por conseguinte, da obscuridade. Não é à toa que Clark Kent, o imortal Super-Homem, é um jornalista. Quem não gostaria de ser um herói? Quem não gostaria de ter o super-poder de conseguir mudar o mundo em meia dúzia de linhas?

Este super-poder impõe-nos responsabilidades pesadas, de ética, de respeito, de dever perante o público. Afinal o que nós contarmos será entendido como verdade e desencadeará reacções. Os tempos são difíceis, são tempos de crise, e como a História nos ensinou, estes são tempos propícios para que a liberdade comece a ser vista como algo secundário em troca de uma qualquer eficácia, em que a desinformação seja utilizada para servir alegados ‘bens maiores’. Infelizmente é este o cenário com que tenho de lidar numa fase que creio ser de pré-profissionalização. Isto impõe-me receios, dúvidas e dificuldades inerentes a um cenário que é, redundantemente, difícil.

Há o receio de não conseguir concretizar sonhos, de não conseguir alcançar o posto de super-herói e ficar pelo escalão de sidekick, ou seja, de ser um jornalista que o é, porque tirou o curso, mas que não exerce o seu super-poder, que não transforma a realidade através do exercício de contar a verdade. O receio papão do desemprego, a escuridão da falta de oportunidades e de um mercado em mudança de paradigma, que está à procura de soluções para tornar rentáveis os novos modelos de negócio. As dúvidas sobre a minha capacidade de persistir após uma prometida carga de nãos, as dúvidas sobre o meu valor num mercado competitivo e exigente. Mas há mais dúvidas, há mais dificuldades: E se um dia eu trabalhar em jornalismo? Vou aguentar turnos de super-herói? Vou aguentar não ter horas para nada e viver a correr para que possamos, em conjunto, salvar o mundo? Apesar de tudo, os jornalistas são homens e mulheres, que correm pelo objectivo nobre de partilhar cultura, de ser o meio que transmite a mudança e que se apresenta como o puro guardião da verdade e da justiça. Talvez seja esta uma visão ideológica, utópica, mas para além de muitos medos, eu ainda tenho uma fé forte, a fé nos nossos bons valores, na nossa fibra jornalística, acredito que também nós somos importantes para sair da crise – com soluções empreendedoras, procurando, pela nossa experiência, modernizar o jornalismo, torná-lo lucrativo sem o vender aos interesses particulares, sendo competente na divulgação das boas notícias e dando voz àqueles que, como nós, pretendem pôr um braço de fora deste pântano em que se transformou o país. Um país que sofre não só uma crise económica, mas também uma crise de confiança e de esperança. Eu tenho muitas dúvidas, mas a conseguir ser jornalista de pleno direito, com um S na camisola e uma capa vermelha, quereria ajudar a construir esta esperança. Cabe-nos a nós, enquanto profissionais ‘criados’ na época da desilusão, ser um garante de firmeza às pessoas, que não confiando nos políticos, nos economistas ou nos religiosos, devem ter plena certeza da verdade das nossas notícias.

Hoje ainda não sou quem do dia faz notícia, permanece em mim a dúvida se algum dia o serei verdadeiramente, mas a sê-lo, sê-lo-ia assim. E desiludir-me-ia se não o conseguisse ser, afinal para quê ser alguma coisa, se não o formos bem?”

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