Publicado por: maragoncalves | 12/10/2010

Diário de um diário. Um estágio no DN

Hoje cedo o meu espaço à Raquel Tereso, como prometido (embora com uns dias de atraso).

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Ontem foi o meu último dia. Último dia de estágio no Diário de Notícias onde estive durante três meses. O carrinho dos gelados deu lugar ao das castanhas, no caminho que fazia todos os dias, e ao lado do cartão do metro deixou de estar o cartão de estagiária. Foi uma despedida difícil, mas esperada.

É difícil fazer um balanço… Porque houve muitos dias em que cheguei a casa eufórica e cheia de certezas, mas também houve muitos dias em que me senti frustrada e sem futuro. No final, acho que é muito cansativo e muito compensador se nos empenharmos e quisermos ser úteis…

Quanto a questões práticas! Costumava estar no jornal das 11h às 21h, umas vezes mais tarde, outras vezes mais cedo. Em parte (grande parte) porque sou bastante demorada e perfeccionista a fazer as coisas… Estive na secção de Sociedade, que engloba tudo o que tem que ver com saúde, educação, ambiente, religião, solidariedade, ciência… Uma das maiores secções, com cerca de 12 jornalistas, dois editores-adjuntos e uma chefe de secção. E que faz muitas vezes “actuais”, os destaques do jornal, correspondentes às primeiras páginas. E a maior parte dos trabalhos que fiz foram reportagens.

Fui bastante à rua falar com pessoas, mas também fiz muito “jornalismo de secretária”, ao telefone com este e aquele… Apercebi-me de quão importante é a história das fontes! Um problema para quem, como eu, acabadinha de sair da faculdade, não as tem. As notícias não vêm ter connosco como acontece com os jornalistas “a sério”, que já são especialistas numa área, como acontece com a maior parte dos que trabalham ali. E só me calhava uma “verdadeira” notícia se me fosse entregue.

Acho que fiz coisas mais pequenas, menos importantes, com algumas incursões interessantes como fazer umas perguntinhas à Ministra da Educação ou falar com as pessoas sobre algo que realmente as afecta, como a história dos cortes nas comparticipações de medicamentos.

No entanto, não considero que o DN seja o melhor sítio para se estagiar… Primeiro porque é política da casa que os estagiários não assinam… Depois porque para se trabalhar é preciso propor trabalhos e arranjar boas ideias nem sempre é a tarefa fácil… Lá está, porque as notícias não nos caem no colo como aos outros. Acho que a diferença está no olhar… Que no caso dos jornalistas experientes está muito mais treinado… Sabem onde procurar e sabem como conseguir, a quem se dirigir para atalhar caminho.

Ainda assim, os editores estão, de facto, disponíveis para aceitar as tuas ideias. Por vezes até aliviados por fazê-lo porque estamos a falar de um jornal diário, em que os dias não são todos iguais. Às vezes uma boa história não sai porque não há espaço, outras vezes acabam por entrar histórias menos interessantes porque é preciso preencher espaço. E é para salvaguardar isso, que se tenta ir preparando os trabalhos com tempo, para não se andar atrás das histórias dos outros e poder planear o jornal.

Acho que esta foi uma das coisas mais interessantes que aprendi. O modo como funciona o jornal e como funcionam as relações… Que há uma reunião às 11h para planear o dia, que à terça se planeia a semana, que há reuniões de “actual” para discutir que espaço dar a cada coisa… Se se deve fazer uma infografia e como… Que não é o texto que define o tamanho da caixa, mas o tamanho da caixa que define o tamanho do texto… E que boas fotografias deixam os editores mais predispostos para dar mais espaço a uma história…

Quanto às pessoas, não me tornei confidente nem confidenciei com nenhuma delas, mas gostei de todas. As que mais me intimidaram no início acabaram por ser as mais interessantes no final. Acredito que há ali bons profissionais, que lutam por boas notícias e pela precisão. Porque às vezes o título mais “shanan” não é o mais correcto. E não se podem fazer brotar notícias onde não as há. Admiro-os sobretudo a eles por enfrentarem os editores e a direcção quando é preciso. Porque o facto de um jornal ser uma empresa que tem de dar lucro às vezes empata um bocado e é preciso não perder o norte.

E que mais? Já me estou a alongar muito… Mas queria só recuperar uma ideia! Salvaguardar que apesar da lei “estagiário não assina” (motivada por um qualquer episódio infeliz de que não cheguei a saber pormenores) pude assinar alguns textos com as minhas iniciais no final. “Com R.T.” podia ler-se na edição em papel… À cabeça aparecia o nome do meu editor, que “assumia” responsabilidade pelo texto, “porque se não está assinado é como se ninguém quisesse assumir responsabilidade por ele”. Mas também chegou a aparecer o nome de outros jornalistas, apesar de estes não concordarem. O que acontecia quando fazia algum trabalho em colaboração.

Enfim, algo que penso que já estar ultrapassado. Pelo menos foi esse o eco que ouvi quando me despedi… Ao que parece os estagiários vão poder assinar. E já que não pude usufruir disso, gosto de pensar que de alguma forma ajudei a abrir caminho para que isso acontecesse.

Quanto ao futuro espera-me algo incerto… Convidaram-me a ficar como colaboradora, eu aceitei. E para já resta-me ser criativa, arranjar “boas histórias”… Uma expressão que tenho ouvido muito e que poderia fazer correr muita tinta… Porque, afinal, o que são boas histórias? Aí está… É com esta questão que fico agora… Quem sabe se mais tarde poderei vir contar-vos mais sobre este desfecho em aberto.

Obrigada por me lerem. Por chegarem ao fim. Saudações jornalísticas!

Raquel Tereso

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