Publicado por: anafilipapinto | 02/09/2010

Atenção: Ora aí vem o microfone!

A síndrome do microfone pode ser bem mais fascinante do que aparenta. Nunca consegui perceber bem a diversidade de sentimentos e reacções que este pequenino e inofensivo objecto pode provocar. Isto porque não há dois casos iguais. Estou certa do quão interessante seria desenvolver uma tese acerca desta problemática. Ao sair à rua com aquele meu ar inocente, começo a aproximar-me da “vítima” como só quem quer uma informação. Acontece que o habitual “sabe dizer-me onde fica a rua…” dá lugar ao temível “seria possível gravarmos umas palavrinhas sobre…”. Quase o mesmo. Mas o melhor de tudo são mesmo as expressões. Incrível como os sorrisos prestáveis se dissipam num espreitar surpreendente daquele bicho horrível que, com a ajuda do gravador, guarda vozes e palavras que não podem ser desmentidas. Fica aquele olhar desconfiado que quase fulmina o nosso aspecto de “gato do Shrek”. Desconheço a origem da fobia. Mas verdade seja dita: é preciso respirar fundo, renovar, vezes sem conta, a coragem e engolir uns tantos mais “Agora não posso porque estou com pressa”. No entanto e não mais expectável, existem também aqueles seres quase estranhos que, por momentos, até parecem implorar “Deixem-me falar para a comunicação social, vá lá!”. (Somos realmente muito complicados.) Chegado o final do dia só consigo concluir que a espécie humana é, irrefutavelmente, uma espécie que, antes de estudar as outras, deveria, acima de tudo, estudar-se afincadamente a si própria. E já agora, lançar um livro de instruções onde ficassem explicados todos os “porquês” possíveis (talvez o ideal fosse esse livro ser coordenado por uma criança naquela idade justamente apelidada “idade dos porquês”).

Acho que é por este e por outros motivos que continuo a acreditar que os jornalistas deverão realmente desenvolver capacidades “extra-curriculares”. A de psicólogo silencioso é uma delas. Nada de perguntas. Apenas olhar. E tentar perceber: “Será que aquele vai querer falar? Uhm… Tem um ritmo demasiado acelerado, deve estar com pressa. Aquele até parece esboçar um sorriso…”. Tudo isto em alguns segundos. Antes que a suposta “vítima”, que quase vira paciente sem dar por isso, desapareça e escape à magia do maquiavélico microfone. É fascinante. Afinal de contas, no Batatoon ele já tinha lugar de destaque – o belo do “microgaitas”. Talvez um dia, por entre maçãs envenenadas, varinhas de condão, poções mágicas, monstros e bruxas, ainda poderá surgir um microfone que adivinha pensamentos e arranca palavras. Quem sabe. Até lá vamos tentando convencer quem passa a partilhar dois minutos de vida e umas dezenas de sílabas. E uma vez terminada a entrevista, os músculos descontraem,  o coração acalma, a respiração normaliza e até se abandonam os monossílabos constantes durante a gravação… “Pronto. Acabou. Já passou! Viu?! Não custou nada.”

(Tudo isto para concluir que: também estou a tentar desenvolver essas tais capacidades “extra-curriculares”. Coisa complicada!)

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