Publicado por: anafilipapinto | 05/08/2010

Porque tudo tem um começo.

Porque tudo tem um começo.

Ninguém sabe ao certo de onde vem e, muito menos, para onde vai. Ironia do destino ou persistência humana – não sei bem o que lhe chamar. No entanto, a verdade é que foi aos quatro anos de idade que entrei, pela primeira vez, num estúdio de rádio. Fui deixar uma mensagem de Natal “aos meninos que não podiam ter prendas”. Achei piada e decidi alterar a lógica dos “Discos Pedidos”: porquê fazer por telefone o que se pode fazer pessoalmente? Foi o que pensei quando comecei a deslocar-me à rádio para poder pedir uma música e ficar literalmente “especada” a olhar para o locutor. Isto enquanto ele aparentava falar para um “ninguém” que, afinal, era tanta gente. Que mistério. E pronto: pedia a música (prefiro não divulgar os meus gostos musicais naquela época), sorria (aquele sorriso típico de criança que conseguiu o que queria) e por ali ficava até ouvir a buzina do carro dos meus pais. Sim, era uma catraia teimosa. Os anos passaram e, não querendo cair em ondas de nostalgia, fui experimentando “aqui e ali”, tentando perceber o que era o jornalismo nas suas mais diversas formas e feitios. No entanto, foi pelos cantinhos da rádio que cresci. Trocava horas de sono, durante as férias de verão, por dias inteiros em estúdio na rádio Boa Nova. E, bem mais “de repente” do que imaginava, dei por mim obrigada a decidir: “Onde vais tu estagiar Ana Filipa?” (Juro que não perguntava tal coisa diariamente em frente ao espelho). Mas assumo que não deu para evitar: em seis opções de estágio, três eram rádios e a primeira era o tal sonho chamado Antena 1. Hoje é a minha realidade diária (pelo menos, até Outubro).

E porque tudo tem um começo: na noite anterior, pouco ou nada dormi. Acordei e pensei: é hoje! Cheguei com a carinha de assustada/maravilhada/curiosa/”tudo que possam imaginar que um estagiário possa sentir”. Ainda me perdi algumas vezes por aqueles corredores (nunca tive grande sentido de orientação). E acabava sempre a espreitar os estúdios. É impossível resistir. É impossível não querer mexer, experimentar, “brincar”. Mas se há que tentar memorizar o que vai ser o cenário dos próximos dias, há que, acima de tudo, saber ter consciência de que aquilo é mesmo real. Um “real” bem diferente, demasiado veloz, efémero. Por ali, temos que saber ser no presente, no futuro e no passado, sem jamais esquecer “o que depende do quê”- tal e qual como quando contamos a história da Branca de Neve. Tudo isto “de hora a hora”. Há apenas uma diferença: não há ilustrações. A voz tem que saber dar forma, cor e, até, sabor a cada pedaço do enredo. E, efectivamente, poucas são as vezes em que há tempo para parar, pensar, comparar, reler e, só depois, decidir. É tudo para hoje, para agora… E enquanto pensamos nisto: puff! O tempo passou. E a notícia deixou de o ser.

Mas melhor que ir memorizando todos os cantinhos da “casa” que nos “adopta”, melhor que poder dizer “já sei mexer nos gravadores”, melhor que conseguir passar chamadas sem ter que perguntar “qual é a extensão?”, melhor que chegar ao bar e descobrir que a senhora já sabe que vais pedir “uma sandes com fiambre e manteiga, um café e uma garrafa de água”, só mesmo perceber que, aos poucos, somos capazes de associar vozes a caras, caras a nomes, nomes a feitios, feitios a momentos. E, quer queiramos, quer não… O “racional” também cede e, com o passar do tempo que é bem mais que apenas isso, quase nos esquecemos que fomos “adoptados” e até parece que foi por ali que “crescemos”… Desde sempre.

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Responses

  1. Parabéns!!!! Quinta a noite ou sexta ao pequeno almoço já tenho leitura!!! bjs

  2. Dá-lhe com galhardia, Ana Filipa!

  3. Tão ingenuamente delicioso!!!!!!!! Gostei.


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